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Amauri Galerani, é empresário do mercado de combustíveis há mais de 30 anos e opera o posto Café Brasil há 4 anos.

Com relação com a aceitação dos cartões de crédito e de débito pelos postos revendedores. Existe uma preocupação atual sobre o custo elevado que tem sido praticado pelas administradoras de cartões. Muito sobre esse assunto foi amplamente divulgado na mídia. Qual a sua visão sobre isso e qual é a tendência futura dessa forma de pagamento?

Trata-se de uma tendência da economia globalizada. Não estamos isentos dessa forma de pagamento e se não aceitarmos perderemos dinheiro. Cada vez mais irá aumentar a proporção das vendas feitas pelo cartão, isso é inevitável. Aqui no posto eu aceito e essa forma de pagamento representa praticamente metade do meu faturamento de combustíveis. Com relação ao custo elevado, trata-se de um abuso, uma vez que normalmente é cobrada uma taxa de 3% para pagamento em 30 dias, o que representa quase R$ 0,10 (dez centavos) se considerado a taxa mais os juros referentes a esse período.
O cartão de débito é ainda mais caro, pois apesar da taxa ser menor, da ordem de 1,5%, ela se refere ao prazo de apenas um dia, o que proporcionalmente eleva o custo para o posto sem repassar o mesmo benefício do cartão de crédito para o consumidor.
O alto custo praticado pelas administradoras realmente é abusivo para a realidade atual dos postos. É preciso fazer algo, e somente os donos de postos têm tomado algumas iniciativas em favor da causa. Alguns pararam de aceitar os cartões o que pode ajudar a pressionar as administradoras. Por outro lado o sindicato dos postos tem feito um trabalho legal junto às administradoras e aos donos de postos.

Qual sua visão para o futuro do posto revendedor mediante a todos acontecimentos ocorridos desde a abertura do mercado que teve início em 1996?

Anteriormente a maio de 1996, os preços eram tabelados, a margem de lucro era pré-definida e igual para todos os postos, a construção de novos postos era controlada e muito bem planejada, o que levava o dono de posto a ter excelente lucratividade sem a exigência de maior competência para gerir o negócio.
Com o processo de abertura do mercado isso mudou. Os preços estão liberados, houve uma facilidade para a construção de novos postos, uma vez que ficou a cargo das prefeituras a aprovação e isso tudo levou o mercado a uma competitividade muito grande, exigindo muito mais dos donos de postos. Quanto mais competição mais competente tem que ser a capacidade de gestão do negócio por parte do proprietário do posto. Infelizmente, até pelas características do mercado, a maioria dos donos de postos não são empresários, não são bons gestores dentro de um mercado extremamente competitivo.Muitos se iludem ao ver um volume grande de dinheiro entrando e que leva a interpretações enganosas, uma vez que atrás desse volume todo existe um alto custo do produto e outros custos operacionais. Saber calcular tudo isso e definir um preço de venda do produto que seja compatível com o mercado e, ao mesmo tempo, que dê um retorno razoável é o grande desafio. Existe pouco cuidado com a operação do posto e a tendência é que muitos postos tendem a fechar em breve, e eu estimo algo em torno de 30%. A competência na gestão do posto é o fator fundamental que vai definir quem vai sobreviver ou quem vai encerrar as atividades.
Claro que para analisar tudo isso não se pode deixar de lado a análise do tipo de negócio peculiar ao posto, uma vez que existem postos bandeira branca sem vínculo com distribuidoras, postos cuja propriedade é do operador e postos cujo imóvel pertence à distribuidora. Em muitos casos a distribuidora fica com boa parcela do lucro, principalmente nos casos de locação do imóvel para o dono do posto. O aluguel representa um custo alto e precisa ser, em muitos casos, renegociado com as distribuidoras mediante a nova realidade do mercado. A distribuidora não quer perder dinheiro e o posto que estiver muito dependente dela possui um desafio adicional.
Acredito que o processo de abertura do mercado deveria ser melhor estruturado e possuir um plano de ação mais planejado por parte do governo.

O que você pensa sobre os preços combinados entre proprietários de postos e toda essa pressão do governo para evitar cartéis?

Acredito que num mercado aberto, a competitividade é fundamental e que não deve existir nenhum tipo de cartel ou qualquer acordo de preços praticados para o consumidor. Mas também penso que o posto tem que manter um bom nível de qualidade de seus produtos e serviços e que deve ter seu preço de venda compatível com o custo operacional.
Sou contra qualquer acordo de preços, mas também sou contra os postos que praticam um preço muito abaixo da realidade operacional de cada posto. Com a CIDE e as últimas mudanças, eu não acredito mais em milagre e a tendência é a prática de preços diferentes sim, mas dentro de uma realidade de mercado.

E por falar em preço de venda, como vai a concorrência aqui na região?

Desde a abertura do mercado em 1996, a construção de postos ficou a cargo das prefeituras. Felizmente, aqui em Campinas, a prefeitura tem mantido algumas restrições à abertura de postos, o que nos leva a um mercado não tão competitivo com em outras cidades da região.
Nesse aspecto eu não sofri muita interferência, mas colegas de outras cidades vivem disputas acirradíssimas com a concorrência.

Quais as mudanças que você acredita que virão com a liberação da importação do combustível?

Uma tendência para o mercado brasileiro é a diferenciação através da octanagem, assim como acontece em outros países, onde é proporcionado ao consumidor a escolha do combustível segundo outras opções de gasolina pura. Não acredito em mudanças significativas principalmente quanto a pequenos distribuidores adquirirem combustível fora do país. É preciso uma logística de distribuição muito onerosa o que inviabiliza a importação para pequenos distribuidores. Outro lado é o preço fora do Brasil, que considerando todos os custos pode se igualar ao da Petrobrás.


Qual é, na sua opinião, o retorno do investimento que deve servir de parâmetro nos cálculos gerenciais de um posto revendedor?

Acredito que o aceitável é um retorno entre 13% a 15% do capital investido, já incluso o custo do capital. Um prazo máximo de retorno do investimento deve ser de até 60 meses.


Qual é a tendência futura de variações da lucratividade do posto revendedor?

É necessária uma conscientização dos donos de postos e do mercado como um todo, uma vez que é preciso a prática de preços justos, compatíveis com o custo operacional do posto.
Mesmo assim, até mesmo devido à competitividade natural entre os postos, a lucratividade já caiu bastante e está em tendência de queda. A pergunta é até onde ela vai chegar?
Dados comparativos mostram que em janeiro de 1996 o preço da gasolina C era praticado nas bombas a R$ 0,576 e hoje em dezembro de 2001 é praticado a R$ 1,699. Isso dá uma variação de 195% nos preços para uma inflação no período de 73% segundo o IGPM (FGV). A margem bruta da revenda era, em janeiro de 1996 de R$ 0,095 o que representava 16% de margem sobre o preço de bomba. Em dezembro de 2001 a margem passou a R$ R$ 0,150 o que representa 9% de margem sobre o preço de bomba. Assim, apuramos uma diminuição da margem de 7% o que representa uma variação para menor de 44%, enquanto o preço ao consumidor aumentou 195%. Assim fica difícil sobreviver.

Como vai a inadimplência dos clientes em relação ao posto?

Infelizmente tem aumentado bastante. Alguns cuidados tem sido necessários para diminuir o número de cheques sem fundos. Com relação aos cartões de crédito e débito a inadimplência é zero, porém o custo é muito alto conforme já vimos. Nos cheques o problema é grave, tanto nos recebidos à vista quanto os pré-datados. Eu tenho convênio com o Serasa o que diminuído um pouco o problema. O custo gira em torno de R$ 0,15 por consulta, o que não é muito elevado. Mesmo assim, apesar da consulta, alguns cheques voltam por falta de fundos, e olha que nós recusamos muitos.

E com relação à nova regulamentação referente aos cuidados ambientais. O que você acha e quais as implicações para o posto revendedor?

Era necessário um aperto do governo junto aos postos em prol do meio-ambiente. Infelizmente, assim como em outras atividades, o dono de posto não possui muito interesse em investir em cuidados ambientais. Nesse negócio, pelo fato de se tratar de produtos altamente poluidores, são necessários cuidados especiais. Na verdade sou a favor disso tudo e acho que demorou muito tempo para o governo tomar providência.
Pelo conhecimento que tenho, aqui no meu posto tudo está de acordo com as novas regulamentações. Tenho tanques com parede dupla e cuido bem de todas as instalações. Para os postos bandeira branca a situação vai ser pior, pois serão exigidos investimentos que muitas vezes não são compensadores. Já os que tem vínculos com distribuidoras, em muitos casos, a mudança será feita pelas distribuidoras.

E as lojas de conveniência, o que representam para os postos?

Nos Estados Unidos, elas mantêm os postos. No Brasil é um mercado ainda embrionário. Precisa de desenvolvimento e uma melhor assimilação do consumidor. Esse é um processo natural e está se desenvolvendo aos poucos. Algumas distribuidoras estão investindo bastante nisso e esperam progredir nesse mercado. Lógico que para dar certo é preciso uma pesquisa de mercado para atender às necessidades inerentes a região de localização do posto. Existem lojas de sucesso, mas a grande maioria ainda é inviável economicamente. Mas aos poucos os postos podem ganhar com isso.

O que você pensa sobre os novos postos que estão iniciando atividade ultimamente?

Muitos surgiram baseados em "chute", não existe uma pesquisa de mercado suficiente para analisar o retorno do investimento. Existem muitos aventureiros nesse mercado. O tempo vai ditar quem sobrevive ou fecha.

O consumidor mudou? Quais as mudanças que você sentiu no comportamento do consumidor nos últimos anos?

Sim mudou. Ele está mais exigente. Quer mais benefícios e ainda assim, pagar menos por um produto de qualidade. O dono de posto que tem uma distribuidora vinculada e que é mais ativa leva vantagem. A imagem do posto e a qualidade percebida pelo consumidor fazem a diferença em muitos consumidores. A imagem de uma bandeira conhecida pode ser um diferencial na confiança do consumidor num mercado cheio de combustíveis adulterados. Eu continuo acreditando no vínculo com as bandeiras conhecidas.

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Acompanhe as mudanças trazidas no mercado de revenda de combustíveis pela instituição da CIDE. Veja a nova regulamentação clicando aqui.

Veja aqui as penalidades para o posto relativas ao descumprimento da nova legislação ambiental.

Você tem cumprido as promessas feitas ao seu cliente? Veja aqui sobre o reflexo da responsividade no posto revendedor.

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